quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Álbum esquecido

,esse excesso de risos e flores. de certo, de dignidade [alheia].
esse clima família, esse engodo, essa felicidade [maçante].
teve ali um coração batendo, um suor, um arrepio. esperança.
mas esse excesso de ideais, de orgulho, de exibição. essa troça.
perde-se no tempo, congela, engessa.
é preciso cuidar-se. 
Não foi por mim, mas por ti.  Porque por mim já não fazia sentido.
Por mim aquele sorriso não mais era. O sol não mais, nem a lua.
Por mim tinha-se ido
o sentido do porvir. Por mim tu foste.
Mas não era assim que eu queria. Não era.


O branco renovava. Dava ar de folha sem pauta, 
pronta para o rabisco dos poemas [de gaveta].
Os sapatos, as calças, até a cueca. Os cabelos,
sinal dos tempos. Virava um anjo, de branco. Observador
atento dos vivos, uma entidade. Percebia
nuances, detalhes. Gravava tudo. Mesmo quando não parecia.



Se não tivéssemos nos conhecido naquele café, onde teria sido?
Se não tivéssemos bebido expresso, capuccino?
Se não tivéssemos ido embora juntos, se não falássemos de livros, se não nos beijássemos.
Teriamos existido?
Teríamos nos dado conta um do outro? Teríamos feito promessas? Teríamos tido?
Teríamos ido?




(As imagens foram retiradas de sites de colecionadores de fotos perdidas)

6 comentários:

Alisson da Hora disse...

‎"... talvez a realidade não apareça definitivamente a nenhuma percepção particular [...] ela está sempre mais longe" Merleau-Ponty

existir? talvez seja apenas uma contingência do universo...

Carla disse...

Seu texto e essas fotos. Uma poesia sem igual, daquilo que poderia ter sido, dos instantes capturados no susto, da beleza de se saber que há um movimento suave em todas as coisas. Nas fotos antigas, no quase, no se...

gabriela gimenez disse...

Se com as imagens já atingimos total nostalgia, quiçá com teus versos.

Débora Didonê disse...

Obrigada pelos comentários. Os poemas não são mais que um desabafo íntimo necessitado de "ouvintes".

onzepalavras disse...

Seu texto me conta e me cala. E daquilo que escrevemos, o que não é mesmo parte de nós? Tudo é produto da nossa matéria.

Beijos, Ana

SRTA. LÓRI CAPITU disse...

Amei, lindíssimo, potente!