quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

estimado,

tenho saudade do que você era. isso é uma contradição! você era aquilo de que tenho saudade quando eu era outra. e não sinto saudade do que eu era, mas de você. mas se eu era outra, de quem não sinto saudade, já não faz mais sentido isso de que sinto falta. isso de ter saudade sua. por que é tão difícil? passei do que eu era. passei do que você era pra mim, entende? sou como acredito que deva, burlando minhas próprias regras-calcadas-no-outro-você. agora, justamente agora, vejo-me tão outra nos seus olhos. vejo-os me olhando, olhando assim tóim-óim-óim -- direto nos meus olhos -- tentando encontrar nofundeminh'alma resquícios do que eu era. também faço isso, será? talvez, sim. pode procurar. mas vou avisando que não vai encontrar. eu escrevia cartas e mandava pelo correio. eram coloridas, cheias de poemas, frases, ilustrações. colava figuras, recortes de revista, purpurina. mandei tantas que nem lembro. tenho saudade do que você era, mas também não há lembrança que me ajude a ter um pingo de saudade. mandei cartas que hoje nem sei. estranho, né? antes você parecia tão essencial. será que as pessoas são assim de ter prazo de validade? eu desvalidei pra você, será? será que você também me esqueceu de não ter lembrança nenhuma? e aquela carta que você mandou, lembra? contando daquela viagem... aquela pra... ah, você contava tanta coisa. mandava tantas cartas. mas, afinal, pra quem mesmo estou escrevendo?

(texto inspirado em [carta sete])

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Macunaímas


A cada mal estar, sua mãe lhe receitava vinagre de maçã. Dor de cabeça: “Massageia com vinagre de maçã”. Tosse: “Faz gargarejo com vinagre de maçã”. Nariz entupido: “Põe vinagre de maçã num copo e cheira, cheira, cheira”. Passada a temporada do vinagre, vinha a do anti-séptico Povidine. Cortou o dedo, é Povidine. Inflamou a acne, Povidine nela. Arranhou o braço, pega o Povidine! Até que outra fonte de cura fosse descoberta.

Já seu irmão, era um fanático por atividades de lazer. Comprou uma bicicleta e passou a andar todos os dias pelo bairro, depois para o outro lado da cidade, depois para a cidade vizinha e, antes que planejasse atravessar o Estado, conheceu o Balance Board. Passou então a organizar encontros com amigos em todos os fins de semana para virar a noite jogando bambolê virtual. Até contratar internet de 10 mega, quando sua paixão era mesmo passar tardes inteiras baixando filmes.

Desde moço, seu pai recortava notícias das folhas de jornal. Aos 20 anos de idade, eram poemas publicados semanalmente. Aos 30, os principais fatos políticos do mês. Aos 40, arquivos de artigos e reportagens sobre direito civil e tributário. Aos 50, álbum de textos sobre índices de criminalidade no município. Aos 60, caixas e caixas de classificados, cartas do leitor e notas de falecimento.

Ela, por sua vez, apaixonava-se perdidamente. Sempre. E sempre era o grande amor de sua a vida. “Dessa vez é ele, eu sinto!”, dizia. Um era recém-saído do ginásio. Tocava violão maravilhosamente. Descobriu que era noivo e deu-lhe um fora. Outro era o melhor capoeirista da turma. Namorava todas as amigas – nunca seria fiel. Mais madura, conheceu um estudante de Letras-Francês, totalmente dominado pela ex-mulher. Impossível. O último foi um ex-estudante de Economia. Para justificar suas gafes, vivia usando jargões como “estou em déficit com você”, “precisamos recapitalizar a relação”, “você precisa investir em mim”.

Cada decepção era vista como um grave defeito. Algo imperdoável. Sempre. E, para ela, seu grande amor nunca lhe daria desgosto. O que não percebia é que, antes mesmo de começar uma relação, apaixonava-se justamente pelo defeito que poderia apontar em seu amante.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ingressantes


Casal pega ingressos gratuitos para um espetáculo no pequeno teatro da cidade. Dirige-se à platéia para se sentar. O palco fica praticamente na altura da primeira fila de espectadores e, entre as fileiras seguintes, só é possível ter mais visibilidade a partir da quinta, pelo menos 20 centímetros mais alta do que as outras.

-- Onde quer sentar, amor?

-- Aqui, aqui. (sorridente)

-- Na terceira fila? Por que não na primeira?

-- Ah, não, bem! Na primeira? (cara de desgosto)

-- Claro, ali não vai ter nenhuma cabeça na nossa frente, poxa!

-- É muito na frente, amor. Deixa de frescura e senta aqui, vai. Shhhhh que vai começar!

O mesmo casal compra ingressos para um show em um dos grandes teatros da capital. O palco tem pouco mais de um metro de altura em comparação com o piso da primeira fila de espectadores. Todas as fileiras ficam exatamente na mesma altura.

-- Amor, nem acredito que conseguimos ingresso para a primeira fila!

-- Não sei por que você fez tanta questão. Esse par de ingressos me custou os olhos.

-- Ai, bem! Uma vez na vida, vai!

-- Podíamos ter comprado cadeiras na quarta ou quinta fila pela metade do preço e veríamos o mesmo show.

-- Claro que não! Cheio de cabeças na nossa frente? Shhhhhhh que vai começar.

Não rezavam, mas passaram uma hora e meia com as cabeças inclinadas 90 graus para cima. Mais 20 minutos de bis.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

My(self)





-- É possível a gente sentir falta de alguém que nem sabe o que significa?


-- Se faz falta é porque significa.


-- Falo de alguém que você praticamente não conhece. Que só viu uma ou duas vezes na vida, mas com quem teve um encontro intenso.


-- Pois esse passa a ser o significado da pessoa. Essa é a referência que você tem dela. A intensidade.


-- Talvez só eu a tenha vivido, não é? Talvez só eu sinta falta.


-- E daí? Se tal intensidade significou tanto para você, é isso que deve levar em consideração. O momento vivido. O momento real. Ele aconteceu e ninguém tasca!


-- Difícil pensar que a pessoa não é só isso (ou que não possa ser nada disso). É como se ela se transformasse em um amuleto. Como se a ideia de estar perto dela acalentasse o coração, fosse o próprio significado da felicidade, do aconchego, do amor...


-- Da carência.


-- Talvez. Talvez também da carência. Carência de ter alguém que possa amar. Que me ame. Parece tão over falar assim... Mas eu tenho vontade de encontrar alguém. Quero escolher alguém pra mim!


-- Se é o que você sente, que mal há em falar? Que mal há em sentir? Isso é vida!


-- É. Não me sentiria viva se não fosse assim. Mas queria que a intensidade continuasse. Que ganhasse força e estivesse comigo o tempo inteiro. Que essa pessoa fizesse parte de mim...


-- A intensidade faz parte de você. Talvez só você saiba dessa intensidade porque ela reflete a sua maneira de viver. Talvez só você tenha visto essa pessoa com essa intensidade porque sua leitura dos seres é sensível, profunda, vai além do que está materializado.


-- Será?


-- Já parou para pensar que você sente falta de si mesma?


(Imagem: Me, myself and I, de Rogério Silva



entre altos e baixos

quem convencionou que homens devem ser mais altos do que mulheres deve ter se dado muito mal com uma altona por quem foi apaixonado. ou vice-versa: uma altona que levou a rasteira de um baixinho por quem ficou enlouquecida de amor.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Engarrafados










Como imensas aortas, largas avenidas
pulsam em rotas de sangue [venosas curvas perigosas],
entrecruzando-se em carótidas e coronárias.

**

Transitar por elas é ficar à deriva:
Canos de escape sucumbem -- arterioscleroses
Entupidos por excesso de amor de menos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

fatal







Em estado de fado. Enfado, só se for sem Amália.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Em gozo

Contempla a altura do oitavo andar. Imagina-se espatifada lá embaixo. Quantas horas durariam os milésimos de segundos de uma queda? Deixaria uma carta? Não! Seria num rompante! Simplesmente viveria o momento da morte como algo único, intenso, completamente espontâneo. Como aquele gozo. Como aquele amor. Sua vida se faz de momentos fugidios. De fagulhas. Efemeridades. Pensa que seria assustador para todos que a conheciam saber que havia se suicidado. Uma moça tão alegre, tão divertida, expontânea... Justamente, expontânea. Seria um vôo. Um vôo de milésimos de segundos cuja sensação, para ela, seria de horas e horas e horas. Coração acelerado. Frio na barriga. Aaaaaaaaaaaaaaahhhhh, grito preso na garganta, corpo em atrito com o ar, ímã da terra sugando... BUM! PLAFT? TUM? Que barulho seu corpo faria? Seria o vôo tão bom quanto seus gozos solitários? Mas não seguido de choro. Seguido de silêncio. I.no.do.ro. In.do.lor. A solidão sem remédio – dos não-hipocondríacos. A solidão de todos, de morrer só.