sábado, 18 de fevereiro de 2012

solentina


a solidão
se instala
em mim
feito poste
que alumia
gotas inclinadas
de chuva
no meio de uma folia

colombina
desamparada
de saia vermelha
rodada
toda, toda marcada
pelo branco desbotado
de pingos no
crepom

papel de seda 
encrespado
cede, derrete rosado
escorre nas pernas
na face, 
vira lágrimas de sangue
enquanto sopra o
pistom

não é solidão
pensada, não é
nada cogitada
vem às lágrimas
marcada
pelo toque do tambor

que insiste, retumbante
"foi culpa daquele beijo"
"foi culpa daquele beijo"
"foi culpa daquele beijo"
dado por um pierrô
errante
de gola grande e franzida
que sob efeito da bebida
largou-a sem mais amor

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

como não houvesse tempo





















Anoitece
e a vida acalma
como não
houvesse tempo

o vento tece a alma

Ruídos do dia
são vencidos pelas horas;
elas, nocauteadas
pela noite

pia o fim do açoite

Noite permanece,
faz-se eterna;
aquieta-se
ensimesmada

aquece-me o nada

Traduz a lua cheia
A não urgência do espaço
Como só ela sabe

luz que cabe ao aço

A noite não urge
O dia ruge
Ruge

O silêncio noturno
mesmo específico,
não desbota o céu

único e pacífico véu

Permite ouvir
da janela ao lado
um talvez casal
fazendo amor, talvez

fado carnal, nudez

Devaneios enluarados
Preenchem a lua cheia
da noite cheia de lua

fartura


[foto: Yusseff Abrahim]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

[happybirthdaysampa]

Lembrei da Pompéia e com ela, da Alfonso Bovero, da Cotoxó, da Gastão Mesquita, da Aimberê... Lembrei da Paulista com a Augusta, do BH, do Charme, do Ibotirama e dos cabelos coloridos, dos inferninhos, da Loca, do boca a boca dos botecos vizinhos, de lá do Memorial da América Latina, do Sonda, do Parque da Água Branca, da lanchonete da MTV, das ladeiras, da Vila Madá, Mercearia São Pedro, da Heitor Penteado, da feira sob o sol, dos temperos e das frutas, dos legumes e dos queijos, das pracinhas, das bancas de revista, do metrô e suas escadarias, feiras de artesanado, Benedito Calixto, os velhos tempos do Empanadas, a Casa Amarela e os Caros Amigos, do Estadão, da Folha, da Editora Abril, telefonemas, entrevistas, corre-corre, fechamento, almoço na firma, almoço no quilinho, café com pão na chapa na padoca, gritaria do estádio do Palmeiras, do São Paulo, do Santos, do Corinthians, engarrafamento na ponte Eusébio Matoso, Shopping Eldorado, Airbus Service, metrô Tatuapé, aeroporto de Congonhas e de Guarulhos também, Brás, Adoniran Barbosa, esquina da Ipiranga com a São João, centrão, República, Viaduto do Chá, lembrei do Teatro Municipal, da OSESP, da Sala São Paulo, dos ambulantes, da 25 de Março, da Virada Cultural, da Catedral da Sé, da fé, dos sem fé, da Moca, das pizzas, das paçocas, do perfume do café, do caldo de cana com pastel, da Rodoanel, do diz-que-diz, de quem não diz, dos mendigos calados, dos meninos pedintes, dos artistas abandonados, da Fnac, da Cultura, do Viena, dos sambas, do samba rock, do Jorge Ben, do Wandi Doratiotto, da estação da Sé, da feira da Liberdade, dos japas, dos chinas, dos koreanos, dos sushis e sashimis, a Chopperia da Mamma e seu tapete vermelho, seus aquários e seus quadros bregas, do videokê, dos alternativos, dos chorinhos, dos chorões, dos cobradores de ônibus, da Cardeal Arco Verde, da Teodoro Sampaio, dos instrumentos musicais, dos inúmeros sofás e armários, Itaú Cultural, Sesc Pompéia, Sesc Pinheiros, do suco de laranja feito na hora, do Franz Café, do Conjunto Nacional, da Pinacoteca, da Estação da Luz, o Mercado Municipal, o sanduíche de mortadela, o pastel de bacalhau, os chopps, Hugo Giorgetti e Sábado, Cine Sesc, É Tudo Verdade, Espaço Unibanco, Café Piu Piu, Bexiga, comida italiana, Vai-Vai, Brigadeiro Luis Antônio deserta aos domingos, Ibirapuera, cães de todas as raças, garças e periquitos urbanos, sobrados rodeados de árvores, chuvarada, corredeiras, engarrafamentos sem fim, massagem no salão de cabeleireiro, amigos que vão e vem, outros que ficam pra sempre, "meu", "não zoa", "sem noção", "então"... Sampa gira, gira-se em Sampa, o tempo passa, a idade muda, mas ainda me estampa de saudade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Na sua

                                                         


(clique na imagem para vê-la no tamanho original)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

respingos de choraminguices [poemículos]


senti saudade tua
baixei eliseth
para acompanhar
ela cantou:
amar será meu fim.
botei-me a chorar

descobri um amor
que não me quis
pedi uma chance,
nem era um bis
[bem que se quis],
na hora da resposta:
xis


despetalei
cinco margaridas perguntando
se me querias;
elas ficaram sem pétalas,
eu funguei de alergia

queria chorar o mar
do mundo inteiro
por teu amor, de tanta dor.
caíram poucas lágrimas,
então preferi um
licor 

ouvi cinco vezes
canção do amor demais
demasiado triste
estendi a rede,
suspirei meus ais

o mínimo sinal
de alegria e tal
já me faz imaginar a ti e a mim
assim, como um casal.
mas é puro delírio
intercontinental


como chorar ouvindo
música romântica
tá fora de moda,
misturei modinha, chorinho e
caipirinha de vinho com
vodca

esqueça de mim,
disse.
virei a esquina
cheirei um jasmim


















(ilustração da amiga tuiteira @)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

penúrias

por quê?
por...
queira!

minúcias

pago no crédito,
no fim do mês
desacredito.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

desalinho

contornos, a impressão de um limite
do corpo? da alma? risque
seus traços de existência
explique-se retido na forma das linhas
disformes, amorfas
desalinho teu esse de pensar
que os contornos existem quando
são apenas o item
necessário para absurdo de existir