sábado, 15 de janeiro de 2011

Visita indesejada


- Sinto muito. Não posso fazer nada.

- Exijo que vocês parem de invadir nosso espaço. Caso contrário, evocarei nosso Deus para que tome atitudes drásticas!

- Seu Deus também é nosso. Esqueceu que ele é criador de todas as criaturas?

- Mas ele tem nossa imagem e semelhança e...

- Pois para nós, tem a nossa imagem e semelhança. Além do mais, sabe-se que vocês tem um desejo latente de ser uma de nós. Soube até de uma história em que um homem se transformava...

- Você está falando de uma obra de ficção de Kafka. Isso não faz sentido!

- Já diz muita coisa de um desejo reprimido dos humanos, por exemplo.

- É novidade pra mim essa de vocês fazerem análise de nosso comportamento psicológico. E justo fazendo uma relação com Kafka? Surreal.

- Ok, ele não é o melhor exemplo, mas... Fazemos muitas coisas das quais vocês não sabem. Por acaso aquela que esteve no seu quarto não carregava uma espécie de recipiente?

- A que invadiu meu quarto, mais especificamente, minha cama? Desde quando se observa se baratas carregam recipientes? Quer saber? Está muito nonsense eu vir até aqui pedir a vocês que parem de entrar em minha casa. A solução só pode ser exterminá-las!

- Não seja tolo. Você está aqui porque sabe que não podem nos exterminar. Somos as únicas, vocês mesmos dizem, que resistiriam a um ataque mortal (para os humanos) de uma bomba atômica.

- Balela.

- É isso que queremos comprovar.

- Comprovar?

- Como eu dizia, o recipiente carregado pela barata que esteve em sua cama era para uma coleta de fluidos. Saliva, lágrimas, todos os fluidos que pudermos tirar de vocês enquanto dormem, e que possam servir como fonte de estudos para...

- Fluidos? Você quer dizer que aquela coisa asquerosa não só subiu em minha cama como encostou em minha boca e meus olhos?

- Pera lá... Olha como fala! No nariz também. O que você viu, afinal? Você a viu sobre sua cama?

 - Eu a vi de costas, descendo da minha cama. Credo!

- Ótimo.

- Não entendi.

- Somos muito discretas e não podemos correr o risco de que saibam de nossas pesquisas.

- Pesquisas, sei.

- Sim, nossa maior arma contra os humanos é que, mesmo que você quisesse contar essa história toda, ninguém acreditaria. Mesmo assim, somos treinadas para não ser vistas com os minúsculos objetos de coleta, já que testemunhos parecidos - mesmo surreais, como você diz - poderiam levar os humanos a suspeitar de tanta coincidência e investigar o caso. Por isso, entramos nas casas enquanto vocês dormem. Afinal, como você chegou aqui?

- Não sei. Simplesmente pensei em falar com vocês e, quando me dei conta, estava aqui.

- Só pode ser um sonho. Só assim vocês admitiriam não dominar por completo o planeta.

- Um pesadelo, você quer dizer! Só vim até aqui para sentir mais nojo de vocês! Blargh!

- Bom sinal.

- Ah tá! A porta da saída, por favor.

- É pra já!

A barata colocou-se na posição vertical, de frente para o homem, e ficou imóvel. Olhou-o fixamente e começou a crescer, crescer, suas garras ficaram enormes, suas antenas pareciam querer agarrá-lo, seu cheiro nauseabundo se espalhava rapidamente pelo espaço até que ela fez menção de atacá-lo.

- Nããããããããããããããããããããããããããããooooooooo!

O homem acordou ofegante. Olhou para os lados, embaixo dos travesseiros e dos lençois, depois o chão. Respirou aliviado e, ao sair da cama, sentiu um estalido nas costas. Pareciam travadas e, ao contorcer os braços para tocá-las, sentiu que sua pele se transformava em uma dura carapaça.

10 comentários:

Alisson da Hora disse...

E depois de uma noite de sonhos intranquilos eis que Didoneante acorda metamorfoseada em...Kafka???????

Ótimo texto, pra Gregor nenhum botar defeito. Kafka disse amém!

=D

Débora Didonê disse...

bingo! digamos que foi uma noite bem intranquila, hehe! tanto que escrevi isso num caderninho ao acordar. obrigada!

Aline disse...

Muito bom! Lembrei o tempo todo da GH, mesmo sem porquê.

Débora Didonê disse...

Obrigada, Aline! Quem seria GH?

Adorei teu blog! És amiga de Onzepalavras?

---- / / ---- disse...

Eu também fiquei esperando GH do livro da Lispector,,, pensei que você fosse fazer uma citação ou algo assim. A Paixão de G.H. é o mais incrivel dos livros da Clarice... ela depois de despedir a empregada, decidi ir ao quarto desta, chegando lá encontra tudo modificado e começa a perceber que no seio de sua casa um lugar que achava ser completamente seu, estava em mãos de outra pessoa, há uma série de delírios, (acho que del´rios não é a palavra certa) mas ela vai dentro de si propria, até o amago de quem é e tem um encontro com uma barata num dos armários, prende e depois de muito pensar, ela acaba por comê-la... bem, o enredo é simples, mas as digressões que GH nos permite vão além do normal.(não sei fazer resenhas de livro). Desculpe, voltando ao seu texto... outro dia, sonhei que matava tantas e tantas baratas, e tudo com as mãos... acredita? até que enquanto estava em pé, uma apareceu e aí alguém gritava para eu matá-la, mas eu estava descalço e não pude matá-la... pq... com o pé eu não podia, acordei achando que sou muito nojento, porque eu matei com a mão! bem quando eu era criança, n me importava de pegar nessas criaturas horrendas... rsss
Ah.. Kafka é muito bom! leu O PROCESSO e o Castelo!? beijos!

Débora Didonê disse...

obrigada! ainda não li este livro de clarice... nem sabia que tinha barata no meio, haha! estou com 'o processo' aqui, que achei em um sebo, mas ainda não li. pra falar a verdade, preciso ler até 'metamorfose'... essa história saiu de uma noite mal dormida. ;-) mas deve ter influência do que já li, certamente.

Renan O. Pacheco disse...

Parece-se com um conto do livro FANTASMAS DO SÉCULO XX, do Joe Hill. Mas com certeza, o teu é escrito de uma forma bem mais agradável e interessante.
Parabéns.

Débora Didonê disse...

Poxa, obrigada! Fiquei curiosa! Vou procurar. Seja bem-vindo, viu? ;-)

Sérgio Bernardo disse...

Aqui, no lambri da sala, com calor e umidade, instala-se um reino de baratas. Temo estar direcionando o o inseticida para algum pequeno Gregor Samsa. Agora, com teu conto, pensarei 10 vezes antes de ir buscar o aerosol assassino. Adorando os posts recentes (os antigos já havia adorado antes) do Didoneante. Bjs

Débora Didonê disse...

Sérgio querido! Nada tão gratificante como te ter são e salvo e, ainda, comentando no blog. Hahahaha! Meu conto me faria sair mantando todas as baratas com mais vigor, haah! Grande beijo!