quarta-feira, 29 de julho de 2009

Querência

Tem dia em que se empurra o arroz com o garfo. Tem dia em que se tem dor de fome. Tem dia em que se sente a pele arder com o sol. Tem dia em que se queima sem perceber. Tem dia em que se lembra de um beijo que nunca mais foi. Tem dia em que se beija o melhor de todos os beijos. Tem dia em que se liga para quem não esperava. Tem dia em que se espera. Tem dia em que se ouvem nãos. Tem dia em que se ouve talvez. Tem dia em que o ar atravessa os pulmões e o diafragma. Tem dia em que parece preso na garganta. Tem dia em que se reparam nas entradas das casas, cheias de flores e plantas. Tem dia em que só se vêem muros, concreto. Tem dia em que se desabafa. Tem dia em que se guarda o que pensa. Tem dia em que o gosto foge. Tem dia em que se come a ameixa seca mais macia e doce. Tem dia em que se quer sonhar. Tem dia em que se quer acordar por pensar que está sonhando. Tem dia em que os pés têm frio sem meias. Tem dia em que elas escorregam dos pés à noite. Tem dia em que se entende o porquê de uma porção de coisas. Tem dia em que tudo é um monte de nada. Tem dia em que se pensa para onde ir. Tem dia em que se pensa na morte. Tem dia em que se vive só. Tem dia em que se quer viver só. Tem dia em que se entende só. Tem dia em que se quer entender com. Tem dia em que se muda para longe. Tem dia em que se volta.

-- em homenagem à amiga Márcia Takano --

Um comentário:

Elisangela Batista Barbosa disse...

Tem dias que podem ser de pura nostalgia...

Elis Barbosa